Madrugada de 17/12/2012.
Encontrar esse livro foi muito interessante,
num momento em que tenho discutido com muitos amigos sobre relacionamentos e as
implicações que surgem ao longo dos encontros e desencontros nas relações
humanas. O livro intitula-se Refletindo a
Alma: A Psicologia Espírita de Joanna de Ângelis – psicografado pelo médium
Divaldo Franco - e conta com a colaboração de mestres e especialistas junguianos.
Estou no primeiro capítulo que li
e reli e sublinhei alguns trechos que considerei muito significativos.
Transcrevo esses trechos aqui enquanto aumenta a certeza de como é bom
aprender. Considero-me uma pesquisadora incansável. Pesquisar o próprio íntimo
é uma atividade que muito me apraz. Descobrir a minha sombra e o que em mim
pode vir a ser luz no aprimoramento das emoções e da capacidade de amar a família,
os amigos, os amores, e quem mais surgir na vida. Sem a maldita da cobrança e
da imposição da minha presença no mundo das outras pessoas.
Espero que minha introdução
estimule outras pessoas a lerem a obra. Ou pelo menos parte dela. E que se
sintam intrigados pelo primeiro capítulo como eu me senti. Confesso que me
reconheci nesta parte do livro e reconheci alguns dos amigos, na maioria homens,
que compartilham comigo algumas ideias e impressões. Encontrei nesse capítulo
traços do que tenho comentado e do que tenho procurado consolidar no meu
aprendizado. Encontrei ali o porquê de que em meus relacionamentos me sentia
presa, com as asas mutiladas e numa angustiante armadilha, sempre procurando
uma válvula de escape no trabalho ou em outro canto que não fosse a casa que eu
havia ajudado a construir.
Eu me encontro na própria solidão. Não nessa
solidão de doentes que repudiam a convivência social porque não toleram a
presença alheia, mas dessa solidão construtiva que me coloca em contato com o
meu próprio ser. Com a minha voz, meus livros, meus desenhos e minha expressão
da autoestima.
Acho que o fato de ter encontrado
mais homens que mulheres que compartilham dessa ideia comigo tem a ver com a
educação opressora que a maioria de nós mulheres recebe na infância. Tem a ver
com os arquétipos do amor romântico apresentado a nós desde tenra idade em
contos de fadas. Com a idealização do casamento como realização pessoal. E também
com as fases do amor que, para nós mulheres, são mais difíceis de ultrapassar
devido às razões que enumerei anteriormente. A maioria de nós enrosca no amor
infantil ou juvenil. Nas conversas que tenho tido com esses homens, tenho
aprendido algumas coisas interessantes, que na verdade eu já sabia, mas que
como mulher eu não expressava por causa do papel que a sociedade nos impõe – de
figuras devotadas e incondicionalmente amorosas. Eu já sabia de tudo o que o
livro expõe, mas a minha sombra engoliu a minha verdade e eu aceitei a máscara
e passei a cumprir o que a família e a sociedade esperavam de mim. O resultado
foi uma sucessão de distanciamentos, desencontros, infidelidades por parte dos
meus companheiros – não de mim, porque não acredito que um relacionamento
extraconjugal possa salvar um casamento, porque não sou dada a revanchismo e
vingança, e porque se um relacionamento já estava confuso, imagina dois então.
Essas são reflexões e sei que soam
como texto de autoajuda, mas como o livro traz as observações de Carl Jung
neste primeiro capítulo, espero que quem quer que leia compreenda que esse relato é uma maneira
de melhor pensar o que li e como a leitura ecoou em mim.
Bem, já escrevi demais. Vamos aos
trechos. O primeiro capítulo, sobre o qual escrevo agora, foi produzido por Claúdio
SINOTI (2012), especialista em Terapia Junguiana. O capítulo intitula-se “Uma
Psicologia com Alma: a Psicologia Espírita de Joanna de Ângelis”.
Sobre a possibilidade de a
Doutrina Espírita trabalhar conjuntamente com a Psicologia, SINOTI transcreve a
sugestão da autora espiritual:
“a tarefa da
Psicologia espírita é tronar-se ponte entre os notáveis contributos dos estudos
ancestrais dos eminentes psicólogos, oferecendo-lhes uma ponte com o pensamento
espiritista, que ilumina os desvãos e os abismos do inconsciente individual e
coletivo, os arquétipos, os impulsos e tendências, os conflitos e tormentos, as
aspirações de beleza, do ideal, da busca da plenitude, como decorrência dos
logros íntimos de cada ser, na sua larga escalada reencarnacionista.” (ÂNGELIS
apud SINOTI p. 31)
O autor lembra os Princípios Fundamentais
da Doutrina Espírita: a crença em Deus, na imortalidade da alma, na
comunicabilidade dos espíritos, na reencarnação e na pluralidade dos mundos
habitados. Assim, Joanna de Ângelis estabelece ligações com o pensamento das
diversas correntes da Psicologia. Baseada na análise do espírito imortal,
SINOTI divide alguns dos princípios em:
1. Aprender a se Conhecer
2. Aprender a Viver
3. Aprender a Ser
4. Aprender a Amar
1.1. Como aprender a se conhecer?
Obviamente não há uma fórmula pronta. Joanna sugere que todo o processo
significa “...não apenas identificação
das suas necessidades, mas principalmente, da sua realidade emocional, das suas
aspirações legítimas e reações diante das ocorrências do cotidiano.” (ÂNGELIS
apud SINOTI, p. 37).
SINOTI cita Jung:
O homem gosta
de acreditar-se senhor da sua alma. Mas enquanto for incapaz de controlar os
seus humores e emoções, ou de se tornar consciente das inúmeras maneiras secretas
pelas quais os fatores inconscientes se insinuam nos seus projetos e decisões,
certamente não é o seu dono. (p. 37)
Para nos tornarmos
donos de nós mesmos, a atitude introspectiva é importante aliada na avaliação
do conteúdo psíquico que se exterioriza. Assim, torna-se o ser responsável por
modificar aquilo que está em desarmonia. Não há necessidade de vinculação
filosófica específica para a meditação. Ela é sugerida como o hábito saudável
de se tornar o observador de si mesmo e das suas manifestações (SINOTI, p. 37-38)
Um dos maiores
desafios no processo de autoconhecimento é o encontro com a Sombra – aquela parte
negada, assim como desconhecida da personalidade. Tudo o que negamos em nós,
mas que permanece atuante de forma inconsciente, tudo o que não aceitamos, mas
que a nossa natureza teima em revelar, mas também as potencialidades nem sequer
imaginadas, que ainda não foram ativadas na personalidade, constituem nossa
Sombra, cujo grande desafio não é derrota-la, mas integrá-la de forma
consciente e harmônica em nossa personalidade (SINOTI p. 38)
Enquanto
mergulhados na Sombra, sem uma avaliação consciente, tomamos decisões e fazemos
escolhas desconectadas da nossa essência ou do Self, como diria Jung, o que
normalmente conduz a ocorrências destrutivas. Mas à medida que mergulhamos na
Sombra, e reconhecemos os aspectos ainda não trabalhados da nossa
personalidade, trazemos à tona essa carga de energias sub ou mal utilizadas,
que podem impulsionar o processo de autoconhecimento. (SINOTI p. 38)
2.1. Aprender a viver: o
autoconhecimento nos proporciona eleger uma conduta saudável para a vida. Viver
bem vai muito além do adquirir, acumular bens e desfrutar sensações que são
caprichos do ego. As metas passam a ser baseadas em valores profundos. O
autoconhecimento nos permite olhar profundamente a alma e passar a viver em
harmonia com essa perspectiva. É importante questionar quem se é para além dos
papéis exigidos pela sociedade. É preciso se ver como protagonista da
existência e não somente um expectador passivo. É preciso reconhecer a
parcialidade da perspectiva apresentada pela nossa família e cultura, que muito
permeiam nossas escolhas e trazem consequências por nós sofridas. (SINOTI, p.
41)
3.1. Aprender
a ser: Um dos desafios que se encontram, a partir dessa perspectiva, é aprender
a conviver com a própria “solidão”, no sentido de que nem sempre será possível
aguardar que os outros nos compreendam e compartilhem conosco desse processo. É
por isso que a autora reforça: “O homem deve ser educado para viver consigo
próprio, com a sua solidão, com os seus momentâneos limites e ansiedades,
administrando-os em proveito pessoal, de modo a poder compartir emoções e reparti-las...”
(ÂNGELIS apud SINOTI, p. 43)
A síntese do
aprender a ser pode ser encontrada na seguinte proposta: “A educação, a
psicoterapia, a metodologia da convivência humana devem estruturar-se em uma
consciência de ser, antes de ter; de ser, em vez de poder, de ser, embora sem a
preocupação de parecer”. (ÂNGELIS apud SINOTI, p. 43)
Quando buscamos
“ser” em vez de “poder” estruturamos nossas relações em bases mais sólidas. Na
concepção de Jung, amor e poder caminham em polos opostos: quando se manifesta o
desejo de poder, aí não existe o amor, pois um é a sombra do outro. As tentativas
de dominar o outro, de controlar e
exercer poder, demonstram exatamente a força oposta que permanece ativa no
inconsciente: o medo, a insegurança, a fragilidade. Demonstram não raro,
personalidades frágeis, que se mascaram de fortes na tentativa de se protegerem
ou serem aceitas (SINOTI, p. 44)
Dentre as
propostas terapêuticas para “Aprender a Ser”, a técnica apresentadas pela
psicossíntese encontra-se em consonância com a visão da psicologia espírita,
quando propõe uma desidentificação de tudo aquilo ao qual o ego se vincula que
não esteja em perfeita conexão com o Self. Nesse sentido pode-se “afirmar que
tem um corpo, mas não é o corpo”, que “Eu, Espírito, tenho uma casa, bens”, mas
que sou muito mais que isso. Da mesma forma propõe a autora espiritual, segue-se
a análise da vida emocional: “Eu tenho
uma vida emocional, mas não sou a vida emocional.” (ÂNGELIS apud SINOTI, P.
45) (grifo meu)
4.1. Aprender
a amar: Na perspectiva da Psicologia espírita: “aprender a amar” torna-se uma
necessidade para a estruturação saudável do psiquismo, porquanto “amar também se
aprende”. (ÂNGELIS apud SINOTI, p. 45)
É no mínimo
enigmático constatar que a força que nos pode curar fica escondida nos cantos
sombrios do nosso psiquismo, simplesmente porque não aprendemos a expressá-la
de forma saudável.
Uma das explicações
para esse fato é que, por conta das experiências traumáticas, ou mesmo falta de
estímulos, permanecemos presos nas primeiras fases do aprendizado do amor. É
que conforme avalia Joanna de Ângelis “o amor atravessa diferentes fases: o
infantil, que tem caráter possessivo; o juvenil, que se expressa pela
insegurança; o maduro, pacificador, que se entrega sem reservas e faz-se
plenificador.” (ÂNGELIS apud SINOTI, p. 47.
O autor
ressalta que a etapa da maturidade no amor relaciona-se com a maturidade
psíquica e não com a cronológica. (SINOTI, p. 47) Assim pessoas adultas permanecem
possessivas em suas relações e exigem que todos as sirvam em suas demandas
infantis. A Psicologia espírita incentiva o ser a olhar à sua volta,
desvencilhando-se do ego e percebendo as dores e os conflitos ao seu redor,
para libertá-lo dessa expressão doentia de amorosidade.
A insegurança,
marca da etapa juvenil do amor, pode ser diagnosticada de várias formas: o
ciúme, a dependência, a imaturidade em lidar com os tópicos das relações, etc. Essas
marcas demonstram uma grande carência, e conforme acentua Joanna de Ângelis:
“Quando se é
carente essa necessidade torna-se tormentosa, deixando de expressar o amor real
para tornar desejo de prazer imediato, consumidor... Eis porque, muitas vezes,
quando alguém diz com aflição ‘eu o amo’, está tentando dizer “eu necessito de
você”, que são sentimentos muito diferentes”. (ÂNGELIS apud SINOTI, p. 48)
A carência é
um dos sinalizadores de que a autoestima necessita ser trabalhada, pois alguém
que não aprendeu a completar-se e que busca preencher o próprio vazio com a presença
do outro estabelece relações de cobrança em vez de relações saudáveis. Muitos
acreditam, no entanto, ser o ciúme o ‘tempero do amor’. Tempero inadequado,
pelo que temos acompanhado, não somente nos noticiários da vida cotidiana, mas
também nas experiências em consultório, onde podemos constatar a fragilidade
emocional dos portadores de ciúmes, cuja afetividade, a capacidade de amar,
encontra-se na patologia. (SINOTI, p. 48)
O amor ao
próximo liberta, mas para isso devemos nos libertar através do autoamor, porquanto
frisa a benfeitora que “o amor que se deve oferecer ao próximo é consequência
natural do amor que se reserva a si mesmo, sem cuja presença muito difícil será
a realização plena do objetivo da afetividade.” (ÂNGELIS apud SINOTI, p. 48)
Para concluir destaco o seguinte trecho que se
refere a algumas histórias que tenho encontrado por aí:
“É no mínimo
intrigante que muitas pessoas busquem o “outro perfeito” para amá-las, mas
porque parece que poucos ainda buscam ser aquele que ama, ainda que de maneira “imperfeita”,
há um enorme desencontro entre as pessoas” (SINOTI, p. 49)